segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Publicação do dia 15 de agosto no meu perfil do Facebook

"Estou há mais de meia hora tentando digitar esse texto, sem ser agressivo, mas de forma que fique clara minha opinião e principalmente minha indignação.

Pois bem,
como tem se tornado rotina para os atores da CIA de Teatro Trancos & Barrancos, saí do ensaio por volta da 00:00h, e procurei algum lugar em que pudesse lanchar, antes de ir pra casa.
Passando pela praça central da cidade, encontrei um menino que costuma perambular por lá até altas horas... A fome parecia ser uma constante em seu olhar. Convidei-o a lanchar comigo e me fazer companhia.
Fomos à única lanchonete aberta até o momento, na qual, rotineiramente, uma kombi costuma ficar parada logo em frente, até o fim do expediente, esperando pelos donos do estabelecimento.

O flagelo da noite começou a partir do momento que entrei nesse lugar!

Ali, percebi - na verdade, acho que vi cara a cara - a capacidade de que as pessoas têm de marginalizar quem já vive às margens da sociedade. O poder de invisibilizar o outro que as pessoas conseguem demonstrar.
Contemplei, de fora, a pior faceta do ser humano: o PRECONCEITO.

Ali, naquela 'singela' lanchonete, vi nos olhares dos proprietários o nojo para com uma pessoa que vive sempre no limite. Olhares que acusam. Olhares que julgam. Olhares que dilaceram a alma.
Ali, naquela 'singela' lanchonete, vi nas expressões constrangidas dos funcionários o quanto a relação para com o patrão parecia, de certa forma, subserviente ao extremo.

O garoto foi enxotado de perto da tv, da mesma forma com que se manda um bandido à cadeira elétrica. Ele foi mandado sentar à distância, como um cão que rasgou o papel higiênico ou molhou o chão do banheiro ao tentar beber água da privada. Ele foi ignorado por todos, como tentamos ignorar um mosquito que zumbe debaixo da coberta...

Permaneci no local por dois motivos:
1- Eu estava com fome.
2- Ele estava com fome [e, sinceramente, eu não sabia quando ou se ele tinha feito alguma refeição hoje - entenda ontem].

Assim, pedi dois salgados, um pra cada e um suco de laranja.
Comemos os dois primeiros enquanto o suco ficava pronto. E pra surpresa geral da nação [#SóQueNão], a funcionária que nos atendeu trouxe apenas UM copo ao servir uma jarra de suco de quase 1 litro.

PUT A KEEP ARE YOU!

Será que ela não sabe contar?
Suspeito que saiba! Só suspeito...

Pra enfeitar ainda mais o ambiente, a hipocrisia e a dissimulação tomaram conta do ambiente. Enquanto comigo o tratamento eram com "Quer mais alguma coisa, querido?", "Precisa de algo, bonitim?", Com o pobre desgraçado era coisas como "Vai comer um kg de meu ketchup?" - que, diga-se de passagem, poderia ser chamado, sem prejuízos, de "água-chup".

Enfim, enquanto comíamos o segundo salgado e eu tentava digerir a situação, conversava com o garoto. Ao nos despedirmos, ele me agradeceu e disse:

"Tio, me dá uma chuteira pra eu poder jogar bola?"

Vi naquele rapazinho, milhares de jovens brasileiros que vivem com o sonho de se tornar jogador de futebol. Vi nele a possibilidade de mudança.
Mas, ao que me parece, se depender de pessoas como as que vi hoje, repletas de valores familiares, religiosos e sociais, que fecham seu comércio na sexta a noite por conta de sua religião, que valoriza os capitalizados e subverte os anseios dos marginalizados a fim de garantir, ao menos, sua permanência em seu degrauzinho minúsculo da gigantesca pirâmide social que rege todas as relações econômicas e trabalhistas nesse país, esse Garoto, não tem perspectiva nenhuma de realizar seu sonho.

Meu coração foi dilacerado por 11 reais de lanche."

https://www.facebook.com/eliweltonlima/posts/574211972635482

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